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O Pesadelo

Nas últimas semanas, tenho tido o mesmo pesadelo noite após dia. O Dr. Cohen acha que não é um pesadelo. Ele afirma que é um sonho. Só porque em minha fantasia não existem monstros, assassinos, fantasmas, demônios, bruxas, bestas malignas ou coisas do gênero, o Dr. Cohen descarta a hipótese de pesadelo e prefere acreditar em sonhos. Eu não vejo dessa forma. Em primeiro lugar, temos uma divergência no que diz respeito ao conceito “pesadelo”. Ao meu ver, todo pesadelo é um sonho, mas nem todo sonho é um pesadelo. E para ser pesadelo, a questão estética não é tão importante quanto os fatores psicológicos que perturbam o sonhador. Em meu pesadelo há uma máquina de escrever enferrujada. Ela fica escondida dentro de um porão cheio de tralhas velhas. No meio dessa velharia, há alguns brinquedos antigos, exemplares de almanaques que se foram há décadas, filmes em VHS embolorado, lápis de cor gastos até a metade, a Sra. Pompéia que permaneceu centenária até o incêndio do 6º andar, um velotroz manco da roda dianteira, a coleção de álbuns fotográficos da família, além de muitas outras memórias que insistem em permanecer na mendicância, implorando por uma ou duas míseras recordações nos dias de Natal. Em meu pesadelo, não consigo dormir com as batidas enferrujadas das teclas da aposentada máquina de escrever. Passo o pesadelo todo tentando dormir e não posso. O som estridente das teclas não permitem que eu sonhe dentro do meu pesadelo. E eu acabo ficando o pesadelo todo em claro. Sempre tento abrir a porta do porão eu por fim a cantoria infernal da máquina moribunda. Mas a porta está sempre emperrada. Não faço idéia de quantas páginas ela pretende escrever em meus pesadelos. O Dr. Cohen acha que se eu criar um blog, a máquina deve se calar e eu poderei dormir sem ser incomodado dentro dos meus sonhos. Ele permitiu que eu tivesse acesso a um computador dentro do centro de psiquiatria do Hospital K. Eles não costumam permitir que os pacientes tenham contato com o mundo exterior. Como se essas novas tecnologias de informações pudessem fazer mais do que aquela máquina de escrever enferrujada que passou eras colocando os sonâmbulos sem utopia em contato com o mundo interior. Benvindo ao porão.

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